sábado, 16 de novembro de 2013

O contrato final - Parte I

Escutava apenas a chuva em sua armadura... Tamborilando ela escorria vermelha por seu nariz ao abandonar seu elmo, enterrava seus pés até a metade juntamente com a mão esquerda que tocava o chão ao deslizar pelo solo negro e fértil da margem da floresta. Fitava o vazio com seu olhar, apenas se recompondo sobre um joelho. Notava de certa forma, a beleza de sua respiração ao materializar-se de encontro ao frio daquele alvorecer de inverno.

                                                         Arte: artisticphenom



Não notou ao seu redor as árvores marcadas pelo aguçado fio de machados rústicos, nem esmagadas por brutais maças de guerra, tingidas com tinta de batalha e sangue! Não notou que naquele alvorecer a chuva lavava a terra vermelha como se fosse um pranto dos deuses, para que o solo não provasse o gosto da morte nem os riachos carregassem estas notícias por outros lugarejos. Não notou que o canto dos pássaros havia dado lugar ao crocitar de corvos. Não lembrou seu contrato, não lembrou seus amigos, não lembrou DELA. 

Ficou assim por algum tempo... imóvel! Apenas a chuva tamborilando, a água encharcando até sua alma e sua respiração dançando como uma velha cigana em fumaça! Até que então ouviu um lento barulho de lama borbulhar sobre sua espalda, e no mesmo instante, limpou o barro de sua espada longa ao rodopiá-la rapidamente em um corte transversal para a a esquerda em direção ao som, e parou! -A um mísero milímetro, parou-.

Não era nada... não era nada... apenas aquele braço forte, e de musculatura definida em sua coloração de musgo, que possuía cicatrizes tribais do cotovelo até o osso exposto de onde um dia sustentou-se na extensão de um corpo órquico forte e monstruoso em sua sede de sangue! 

Não era nada... não era nada... Era apenas o maldito músculo de um braço de orc contraindo-se em meio a lama e a chuva... talvez ansiando por vida, talvez teimando em não querer partir... talvez alguma magia poderosa de uma velha bruxa... Não era nada! Não para ele...

Cansou, e assim caiu, o bravo guerreiro, caiu ao observar sua volta... Seus bravos companheiros de batalha jazidos como pedras, meio enterrados ao solo ou emaranhados a corpos pútridos que ainda fumaceavam ao expor seu sangue quente, que a pouco ainda davam o viço para a vida! Ali estavam os quatro dos seus! Conhecera Youseff, o pirata, por suas cimitarras pendidas ao lado do corpo, seu corpo esguio e sua cabeça coberta por um tubante negro, já meio desenrolado. Conhecera Silmä, pela cota leve e verde, e viu assim suas tripas enfeitando um machado rústico como se fossem uma cobra, enroladas ao longo do aço! -Fora um golpe brutal, pensou-. Na outra ponta reconhecera O Gigante, um bárbaro nórdico com o que sobrara de seus cabelos louros - por hora endurecidos de lama e sangue-, pois onde hora jazia um rosto brutal e feroz, agora jazia apenas um sumo vermelho, onde alguma maça encontrara sua fronte!

Assim, neste instante como se uma lança o houvesse atravessado o corpo, recordou-se de tudo como um choque! Do contrato que houvera feito com o mercador para limpar a borda da floresta, do pouco ouro que haveria cobrado por serem apenas uns "três ou quatro orcs". Por ter convencido seus bravos irmãos a irem consigo nesta fácil missão! Por ter aceitado suas justificativas de ir junto pois não era mulher de perder a diversão...

Até que então um arrepio mais frio que a própria neve do inverno lhe percorreu a espinha... Ela não estava ali! Haviam pelo menos duas duzias de orcs estirados ao seu entorno mas ELA não estava ali! Ele, um guerreiro, maestro das armas do castelo de Arendeth até sua ruína, ostentava ainda a lança cortando o sol, -brasão de sua família- ao peito, havia se esquecido do juramento no fervor da batalha.. Ele não a havia protegido... Não havia cumprido sua palavra como guerreiro, como homem, como amante... Precisava encontrá-la... ELE precisava... 

De súbito ocorreu, como se houvesse retornado ao corpo após ouvir aquele grito monstruoso vindo da floresta. Ergueu sua espada com ambas as mãos ao mesmo passo que colocou-se em pé por sobre suas pernas cansadas e assim vislumbrou aquela cena...

Continua...

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