sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Nasce uma sombra... Parte III

"Annya acordou de um sono reconfortante, não lembrou de tudo o que acontecera pois estava reconfortada, quente e limpa, suas feridas estavam cobertas com alguma folha que lhe dava uma leve ardência. Examinava o pulso amarrado quando ouviu o crocitar do corvo. Não pensou em quanto tempo ali estivera, não pensou por quanto tempo dormira.
Sentou-se assim na cama de bambus, olhando em volta, sem saber onde estava. Era um quadrado simples, feito de madeira rústica. Não havia mobília, apenas sua cama no chão, logo abaixo de uma janela, e um banco ao lado de onde o animal a estava observando com seus grandes olhos vermelhos em sua cabeça torcida para o lado. Mais ao lado havia o que parecia ser uma porta, coberta com uma cortina desbotada, com um branco já amarelado do tempo, puída na parte de baixo! Ao levantar-se, notou estar de roupas negras de couro, justas ao corpo. Apalpou-se por um instante e então notou que sua cabeça estava leve. Seus cabelos negros e compridos haviam sido cortados, estava com um corte muito curto, rente á sua cabeça. Não entendia nada e um breve aperto correu em seu peito.

Rumou então para a cortina, e a abriu uma fresta, espiando para a outra sala. Era outro cômodo simples e sem mobilha nenhuma, apenas outra cama de bambu estava a um canto, porém notou que a porta era de madeira, e estava aberta dando vista para um gramado viçoso. Criou coragem e passou pela cortina, onde uma sombra negra surgiu na porta. Assustou-se e apertou as mãos contra o peito. Era um homem esguio, com vestes negras justas ao corpo, e uma espécie de máscara que lhe cobria o rosto até a altura do nariz. Trazia um coelho que esperneava pendurado pelas orelhas em uma das mãos e um arco curto na outra. Annya ficou paralisada ao ver aquela cena, não conseguia correr, nem mesmo falar. 


-Você acordou... Suas feridas doem? Perguntou o homem ignorando-a e entrando para pendurar o animal pelas patas em uma corda na parede. Ela não conseguia responder... olhava o coelho debatendo-se de encontro a parede e ouvia o corvo crocitar no quarto atrás de si. 
-O que foi, você perdeu a fala ao provar da morte? Mais uma vez o homem insistiu, fitando-a e cruzando os braços.
-Eu não... Eu... O matei... Annya respondeu enchendo os olhos de lágrimas.
-Pequena... Respondeu o homem. -Tirar a vida é um dom! Imagine se ninguém morresse? O mundo é constituído de um equilíbrio perfeito! Ele prosseguiu. 
-Para o bem existe o mal, para a luz existe a sombra, para a vida existe a morte! Nós não somos nada mais do que facilitadores da partida destas pessoas para um mundo melhor, ao lado dos anjos... ou demônios, concluiu!
-Eu... eu não sou uma assassina... resmungou chorando!
-De fato, retrucou o homem.
-Á partir de agora, você não existe... É apenas uma sombra. Esqueça onde esteve, esqueça quem viu e quem conheceu. Esqueça onde brincou e os amigos que um dia teve! Você está morta para este mundo, pequena...
-Eu não quero isso, retrucou, e eu não sou pequena, meu nome é Annya...
O homem então moveu-se para perto da menina, olhou-a nos olhos e a esbofeteou no rosto largando-a sentada!
-Você não é ninguém! Você não existe! Gritou! Você agora é uma sombra, e esta foi sua primeira lição, prosseguiu. -Você aprenderá em breve que eu não repito lições!
Annya tentava prender o choro caida ao chão, com a mão cobrindo a bochecha roxa, tremendo de pavor.
-Você precisa comer, disse o homem que voltava-se a um banco ao lado da porta! Annya viu-o sentar e sem notar nenhum movimento sequer, assustou-se com um estouro de uma adaga que tremia a frente de seus pés! O homem a havia arremessado com tanta velocidade que Annya sequer ouvira um som.
Olhou aterrorizada para o homem, que a fitou, questionando:
-E então, vamos comer carne de coelho esta noite, ou não?"

Continua...
Arte: gimei

2 comentários:

  1. Parabéns, otimo conto. Continue usando essa imaginação que eu vou continuar lendo.

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